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Um único dente de alho por dia afasta o risco de câncer e de outras doenças.

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Não sei quantos alhos seriam necessários para espantar os vampiros da Transilvânia de acordo com a lenda, mas uma coisa eu garanto: um único dente já afugenta muita doença. É o que basta.  Noutro dia, confesso, estava refletindo sobre essa história de alçar alimentos a superalimentos, título que damos para enaltecer um ingrediente quando sai um novo estudo sobre uma de suas propriedades em prol da saúde. Aponto o dedo para o meu próprio nariz: no entusiasmo, talvez já tenha exagerado e feito isso, mas não vou render assunto para ir direto ao alho. Talvez  ele, sim, seja um legítimo merecedor do apelido.
Tenho os meus argumentos. O primeiro é a porção: um dente de alho, tempero tão difundido em nossa cozinha, me parece viável. Tem muito “superalimento” por aí que, na prática, teria de ocupar todo o seu prato para fazer algum efeito. Segundo, o respaldo científico: dei uma olhadinha há pouco no PubMed, a biblioteca do Instituto Nacional de Saúde, nos Estados Unidos, e foram 1.507 estudos só nos últimos cinco anos sobre o poder do Allium sativum sobre a saúde, algo já relatado há  mais de 4 milênios pelos egípcios. 
Encontrei nas palavras da fundadora da Associação Paulista de Fitoterapia, Vanderlí Marchiori, outra razão para achar que o alho é mesmo super: “Ele abaixa, sim, o LDL, que seria o colesterol ruim, e reduz a ameaça de trombos na circulação”, começou ela a me listar. “Auxilia, sim, a controlar a glicemia e a insulina”, enfatizou. “É extremamente bactericida, ajudando a matar bactérias gram-positivas e gram-negativas. É um ótimo fungicida também, com ação comprovada inclusive em fungos que são muito comuns em diabéticos. E, como se não bastasse, há diversos achados apontando que age contra o vírus da gripe. São só exemplos.” Deixo registrado que estamos falando de ações demonstradas 
Pedi uma entrevista à Vanderlí porque ela já escreveu um livro sobre o tema, hoje esgotado. Aliás, curioso: Vanderlí é nutricionista e também fitoterapeuta, uma combinação, eu diria, bem com o sabor do alho, que é um condimento à mesa e, na farmácia, uma das espécies reconhecidas como remédio fitoterápico pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Aliás, quando o escritor irlandês Bram Stoker fez uma de suas personagens usar um colar de alhos para enxotar o Conde Drácula, no clássico que publicou em 1897, ele criou a releitura de um mito antigo: em tempos nos quais as doenças eram tidas como obra do diabo, as propriedades medicinais da erva, cujo bulbo ardido a gente come,  eram encaradas feito um feitiço contra o Mal —  assim, com letra maiúscula. Nem tanto… Talvez, modestamente, contra males tão mundanos.
Mas preciso contar que, entre as últimas do alho está ser o melhor tempero contra o câncer. A primeira evidência mais parruda veio da China. Lá, há pouco mais de cinco anos, os pesquisadores analisaram o hábito alimentar de cerca de 6 mil pessoas. Cruzando os dados sobre a  saúde delas,  concluíram que o hábito de comer alho diariamente derrubaria em 44% o risco de câncer nos pulmões. Entre os fumantes espeficamente, que castigam esses órgãos com suas baforadas, a diminuição da ameaça foi perto de 30%.
De lá para cá, surgem trabalhos que apontam como a alicina, princípio ativo da espécie, atua no DNA das células evitando mutações genéticas, um dos gatilhos para os tumores. E esse não seria o único mecanismo. Aliás, voltando ao PubMed, de dezembro do ano passado até a véspera da publicação deste texto, foram 14 pesquisas sobre os efeitos do alho nas células malignas.
Vou dar um aperitivo: chineses (eles de novo, mas agora da Universidade de Beijing) ao lado de pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, mostraram que a alicina suprime mutações que levariam uma célula do estômago a iniciar um belo câncer gástrico. O trabalho foi publicado agora, em fevereiro, no mesmo dia em que  pesquisadores da Universidade Livre de Berlim e de mais três instituições alemãs demostraram que a substância do alho age em 332 proteínas presentes em diversos tumores, ajudando a conter a doença.
Além de evitar mutações que disparariam o câncer e atrapalhar o crescimento de tumores já existentes, a alicina impulsionaria as defesas, cooperando para que o sistema imune reconheça e destrua células doentes. No fígado, por sua vez, ela turbina moléculas — as de glutationa S-transferase, pra quem faz questão do nome — que ajudam o órgão a lidar com substâncias tóxicas.
Claro que nenhum “superalimento” é 100%  de garantia de que uma pessoa não ficará doente. É um hábito a mais temperando o dia a dia para afastar a probabilidade encrencas. Quem escreve promessas superlativas está mentindo — eis minha crítica ao rótulo “superalimento”.  Só que tudo na vida tem um preço, certo?  No caso do alho, aqui vai a fatura: o ideal é aguentá-lo cru.
O processado comprado como tempero pronto deixa a desejar — além de ser cheio de conservantes, como o sódio, boa parte do potencial da alicina vai para o brejo.  Alho frito? Esqueça também. Botou no óleo quente e, na melhor das hipóteses, 90% da alicina desaparecem. Cozido? Bem, só se a temperatura não ultrapassar 60 graus Celsius, o que é distante do ponto de fervura e, mesmo assim, com a comida sem borbulhar, tem de ser por pouco tempo.
A dica então seria acrescentar o dente no final do preparo e, cá entre nós, aí você  irá comê-lo não tão cozido. Assado? Só se não ficar mais de 10 minutinhos no forno médio e olhe lá — um bocado da alicina também se perde. Ah, tem mais, melhor esmagar do que picar, para diminuir a área na superfície do dente que entraria em contato com o oxigênio, elemento capaz de mandar parte das propriedades para o espaço.
Qualquer que seja a forma de consumo, porém, mais do que o sabor picante, o que pega todo mundo — até os adoradores de alho como eu —  é o bafo inconfundível. Pode tentar hortelã, menta, pasta de dente, chiclete — tudo ajuda e nada resolve. Por quê? Porque a alicina vai parar no sangue e perambula por ali durante horas a fio. Portanto, aquele hálito típico também é exalado pela mucosa irrigada de sua boca, de dentro para fora, entende? Já foi comprovado que o cheiro sai até pelo suor. Ele e o chulé ficam mais… ardidos?
A alternativa seria engolir uma cápsula diariamente, segundo Vanderlí Marchiori, com 900 a 1,3 miligramas de extrato ou óleo de alho desodorizado, porque muitos laboratórios usam um processo que mantém a atividade da alicina e tira parte do seu odor forte. Ou continue como eu, que prefiro  usá-lo na cozinha, comendo alho feliz da vida naqueles dias sem namoro e só amizade.
Fonte: Viva Bem

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